sexta-feira, 22 de outubro de 2021

 Rio

 

Miro,

à distância,

a confluência entre o rio e o mar.

Tanto mar!

Quanto rio!

Sou rio.

Sorrio,

fluindo para o mar.

 

 

 

 


 

 - Alma polinizadora -

 

O que sei de mim

sem dúvida,

álibi,

mácula,

é que sou alma.

Semente que

brota,

arvora,

floresce,

frutifica,

compartilha

e fecunda o tempo,

a vida,

a esperança.

Sou alma polinizadora.

sábado, 16 de outubro de 2021

 

P.nto

 

       

Eu   fui

Eu   Sou

Eu   Serei

Eu   Sempre

       Eterno

        Ponto

             Luz


Luz


Sento

Silencio-me

O desejo de voar é intenso

Subo (gravidade densa) e desço

Rumores e desapegos

Percursos da jornada

Silêncio:

Luz


domingo, 3 de outubro de 2021

 Semeadura


Faço da mente

Uma seara fértil

Onde não se mente

Só semente

Fruição

Sob a luz do Sol

Força de germinação

Floração

Frutificação

Sementes  de perdão 

Respeito

Aceitação


sábado, 25 de setembro de 2021

Vida solar 



Para a lua

         o Sol

Para as estrelas

        o Sol

Para a Terra

         o Sol

Para o tempo

         o Sol

Para os pensamentos

          o  Sol

Para a  vida 

                  Caminhos do Sol

domingo, 22 de agosto de 2021

 

Predição

(Para Kopenawa e Krenak)

 

Ecoam recados,

mensagens e

profecias do coração da floresta.

Reverberam polifonias

guajajara,

macuxi,

yanomami,

krenak...

São todos nós:

humanos,

conterrâneos,

co-terrenos,

co-viventes,

brasilianos,

anunciando a velocidade do tempo,

ideias para adiar o fim do mundo,

vozes e mãos para procrastinar

a queda do céu.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

 You

In my intellect there are diamonds

shinning for you.

In my mind there is the quietness

of peace and hope because of you.

In my unconscious there are glimpses of suns and moons

I have been discovering with you.

In my heart there are dreams of a child

who belongs to you.

In my smile I bring contentment and silence

when I pause to meet you.

In my eyes there is joy and calmness

when I have a glimpse of my future,

of being close to you.

sábado, 9 de janeiro de 2021

 [Revelação]


Tudo foi revelado pelo Sol:

a luz,

os breus,

o caminho,

Deus,

o ponto de mutação, 

o retorno ao Sol.

domingo, 3 de janeiro de 2021

 

A arvorezinha (em)cantadora

 

Plantei na minha rua

uma arvorezinha que dá flor branca.

Dizem ser de origem indiana 

e da qual se come flores, folhas, vagens e raízes.

Plantei-a para a minha felicidade,

para os bichos,

para o mundo.

Acompanho da minha janela o seu crescimento

com cuidado, encanto e expectativa.

Cada ramo, cacho de flor e vargem

abunda beleza, fragrância e fartura

para seus visitantes alados.

A arvorezinha parece ser um enorme ecossistema verde e branco,

alegre, fragrante e doce.

Não é solitária!

(Em)canta-me com sua festa solidária.

É um entra e sai de besouros, abelhas e passarinhos

(Imagino quantas criaturas minúsculas e invisíveis se albergam naquele mundinho!)

polinizando o mundo de felicidade, flores e esperança.

quinta-feira, 11 de julho de 2019


O homem da terra

                                                                                                  (Pro meu pai, Zezito)


O homem da terra

Foi meu pai, um sertanejo, quem me deu as primeiras aulas práticas de amor e respeito pela natureza e pelos bichos. Também foi ele, com as suas atitudes e história de vida, quem me ensinou a capacidade de adaptar-se a situações adversas, típicas do sertão nordestino nos anos 1960 e 1970: pobreza, exclusão social, estiagens...
Ele tinha muitas virtudes:  amor à natureza, honestidade nas interações, disciplina no uso do tempo.... Mas tinha lá as suas rudezas e sua didática sertaneja para educar os filhos. Lia quase nada; fazia umas continhas. Não era avesso à escola, mas ao contrário de minha mãe que queria ver os filhos todos estudando, ele preferia ver os filhos com enxadas, foices e machados lidando com a terra, com os bichos. Afinal, para ele, ler e escrever algo já era o suficiente. Os filhos mais velhos já sabiam ler textos simples, fazer continhas.
Ela sempre acordava cedo, pelas quatro horas da manhã: o banho, o café, o trabalho, cuidar dos bichos.  Não largou esse hábito mesmo quando já velho. Acordar cedo era uma de suas virtudes. Isso justificava sua difamação à preguiça. Era um problema para nós, crianças: o barulho cotidiano no “meio da noite”; as reclamações àqueles de nós que insistíamos em dormir depois das seis horas.
— Acordem!  Os passarinhos não devem nada a ninguém e já estão voando.
Repetia esse mantra quase cotidianamente.
Acordávamos subitamente. Mas logo voltávamos a dormir, aconchegados pela rede, até que ouvíamos mais forte, dessa vez agitando os punhos de nossas redes: — Acordem!
A tensão em saber que uma terceira chamada, mais brusca e definitiva, logo viria; o sol espalhando sua claridade incontrolável que entrava por todas as portas e janelas já abertas e as responsabilidades que já tínhamos, nos obrigavam a abandonar a rede.
Andávamos por aquele sertão longas caminhadas para ir à escola, à bodega ou a uma pequena plantação de feijão e milho (quando era época de chuva) que meu pai tinha como meeiro em terras de conhecidos seus. Ou atividades mais próximas de casa: a pequena plantação no quintal e puxar água do subsolo com uma bomba d´água para abastecer cotidianamente os potes, para o banho e para as cabras e ovelhas, ou coletar algum alimento para uma vintena desses bichos que meu pai criava, quando escasseava severamente o pasto.
Em um daqueles dias da nossa infância, um verão escasso de água e comida para os bichos, depois do café, meu pai chamou a mim e o meu irmão.
— Peguem as varas e vão até à quixabeira com os bichos.
Era uma dessas atividades de gente grande. Eu e meu irmão talvez tivéssemos 10 e 8 anos. Alimentar os bichos era uma incumbência agradável, mas dura para crianças. Era já novembro ou dezembro. Quiçá já estivéssemos de férias da escolinha. A paisagem do sertão tornara-se seca, cinza, monótona, mais quente. Exceto as carnaubeiras (eram bastante), os raros juazeiros e quixabeiras e um pouco mais de xique-xiques e mandacarus que conservavam o verde, tudo era árido, quase sem vida. Uma paisagem ensolarada, rala, escassa de alimento.
Sabíamos o caminho. As cabras e as ovelhas também. Caminhamos puxando as varas que deixavam riscos no chão, seguidos por uma fila de caprinos e ovinos. Às vezes eu parava e apreciava a fila de bichos serpenteando, ditados pelo nosso ritmo, seguindo os riscos das varas. Sentia-me importante por fazer aquela atividade, embora um pouco forte para uma criança.
Às vezes eu me perguntava: — As cabras e as ovelhas gostam de mim por levá-las para comer? Sentia que sim.
— Nosso pai se sentiria orgulhoso de nós por fazermos aquela atividade dura e bonita? Ele jamais nos disse. Porém, sentia que sim.
Eu amava esses bichos domésticos. Tínhamos ainda as galinhas, o cachorro e o gato. Mas sabia que as cabras e as ovelhas necessitavam mais de nosso cuidado no temo de estio. Eu observava muitas virtudes nelas: a calma e a delicadeza das ovelhas; a coragem e o bom humor das cabras. Imaginação de criança!
Bem, tínhamos outras formas de saciar a fome dos bichos: coletar carnaúbas, ramos do jucazeiro (outra árvore que se conservava verde no meio da caatinga), e galhos de mandacaru e xique-xique. Essas atividades mais exigentes, pois exigia ferramentas como foices, facões e machados, fazíamos como coadjuvantes do nosso pai.
Ele, sempre exigente. Queria que fôssemos um sertanejo como ele. Eu, não falava para ele, mas já havia feito a minha opção pela escola, pelos livros, queria ser professor...
Ele não tinha essa experiência. Estudara quase nada.  Seus valores eram o do cultivo da terra, do cuidar dos bichos, do trabalho duro e honesto, do ensinar pelo seu exemplo.
Sim, ele ensinou pelo exemplo. Foi um grande educador.
Suas atitudes, exigências, rudezas nos deram as primeiras lições de honestidade, esperança e coragem. Sua relação com a terra, com os bichos, o conhecimento acurado da fauna e flora sertanejas, sua criatividade para conviver com a seca e com a chuva, deram-nos lições de amor, de respeito, de cuidado e de gratidão pela natureza.
Nosso pai, que nunca estudara em uma escola, foi nosso primeiro professor!